Trabalho de iluminação

Como ando sem inspiração para escrever decidi publicar um trabalho que fiz sobre o beckett para a matéria de iluminação na faculdade, espero que gostem!

 

 

   Pode-se observar que a luz diz muito sobre uma concepção. No espetáculo aqui assistido "Beckett in White - a comédia", de Samuel Beckett, direção de Mauricio Lencastree, encontramos simplicidade e direções pontuadas, tanto na encenação como na concepção da iluminação, neste caso também assinada pelo diretor. Aqui luz e cena estão integradas e caminham juntas, uma dando suporte e apoio necessário para a outra.

 

O Espetáculo "Beckett in White - a comédia" retrata os conflitos de um triângulo amoroso formado pela Mulher, o Marido e a Amante. Os três atores estão em cena o tempo todo, imóveis, embrulhados em três sacos brancos, em que apenas deixam de fora suas cabeças. A maquiagem de base branca, é uma mistura de expressionismo com seres clownescos. A linguagem utilizada é baseada no teatro do absurdo, onde há variações modulares nas falas dos atores e interação na platéia. O cenário se faz com o fundo preto do palco coberto por fumaça, onde se encontram os três sacos brancos de cabeça pra fora.

A iluminação utilizada é simples, muito também em função do material disponível no local da apresentação, Spaço dos Insights. Porém é interessante observar que mesmo na simplicidade a luz dialoga o tempo todo com o espetáculo, fazendo parte dele, e guiando o espectador a que caminho seguir. Como em alguns momentos chega até a ser fator determinante do clima que se quer instaurar.

Vamos por parte. A Luz é baseada o tempo em basicamente três focos direcionados para os atores, o que já determina que a história a ser contada vem deles, é uma luz branca, simples, mas que em interação com a fumaça, já logo na entrada tem um resultado visual fantástico, fazendo com que pareça que são apenas três cabeças flutuantes no palco, sem corpo. O que já é um complemento da encenação.

Tendo esta luz citada acima como base do espetáculo inteiro, e os corpos (os plásticos) surgindo com o decorrer do espetáculo devido ao desaparecimento da fumaça, os personagens vão se revelando e tornando-se íntimos da platéia. E é nos momentos de interação em que os próprios personagens brincam e conversam, buscando cumplicidade do espectador é que entra uma espécie de geral na platéia, onde se misturam, atores e espectadores, não há mais nenhum no foco central, todos já estão revelados pela iluminação causando uma identificação e relação de cumplicidade maior, entre ambos. Além é claro, da iluminação na platéia ser uma solução prática para que os atores possam enxergam características pessoais no espectador e assim criarem os carinhosos apelidos, como: óclinhos, cabeludinho, azulzinho etc Ao término de uma brincadeira de platéia o foco retorna sempre aos personagens centrais e assim é até o fim do espetáculo, sendo introduzida a geral platéia nos momentos de interação.

Próximo do fim o espetáculo toma outro rumo, o que foi risos o tempo todo, começa a tomar um peso existencialista, e o que fazia divertir se transforma em amargura, neste instante percebe-se lentamente sendo introduzida uma coloração azul na cena, que vai tomando conta do espaço e ficando cada vez mais forte, de acordo com a intensidade dramática da cena. De repente tudo é azul, e algo no texto e nas suas expressões sugerem que tenham morrido, ou que não tenham mais esperanças, ou que se perderam em algum lugar como em "Esperando Godot" do mesmo Beckett.

Nas últimas falas do espetáculo o azul vai sumindo lentamente e voltando apenas para os três focos inicias, já mais fracos, escuros. Num ato brusco os três atores levantam a cabeça com a boca aberta como que num imenso grito mudo no exato momento em que os focos estouram em seus rostos estouram em seus rostos revelando que algo se acabou para aqueles três, mais uma vez percebemos a integração entre luz e espetáculo. E os três, ainda de cabeças levantadas e bocas abertas, angustiados por um único som que não vem, recebem a despedida de uma platéia cúmplice com um foco que vai se fechando e se apagando lentamente em cada uma das bocas, como se fosse o último suspiro daqueles personagens. Ficando como última imagem para o espectador, num efeito ótico provocado pela iluminação, a impressão de que não se resta mais nada no palco, apenas a três bocas flutuando, num pedido mudo de ajuda.

    

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