Pra ficar
A frase que não sai da minha cabeça, dita na festinha de encerramento das Satyrianas 2006, por um espectador desconhecido, que havia, naquele dia mesmo, 05 de novembro, assistido aos 120 dias de Sodoma: " Vou ficar pensando em vocês... em tudo que fazem ali. Obrigada.". Silêncio.
Fábula infantil, mas triste.
Era uma vez um peixinho, ele veio de águas muito distantes e desconhecidas, chegou num novo reino de águas claras, que fora criado há pouco tempo, o peixinho tinha muita vontade de viver naquele novo reino, mas encontrou muitas barreiras, a cultura daqueles peixes era diferente da que ele conhecia, teria que se distanciar da sua família para estar ali, teria de mudar de valores, mas mesmo assim o peixinho valente e corajoso insistiu, sua vontade de descobrir novas possibilidades e crescer enquanto peixinho era maior que tudo isso. Com o tempo, o peixinho fez novas amizades, pessoas que tinham histórias parecidas com a dele, um dos peixinhos amigo veio inclusive de um lugar muito próximo de onde ele veio. Tudo começou a ficar mais confortável e mais delicioso também. As vezes o peixinho se assustava com algumas atitudes dos peixes grandes que íam contra tudo aquilo que ele acreditou durante anos, na vida que tinha distante dalí. O peixinho estranhava as discussões que aconteciam, pensava sozinho em seu canto: Como pode vários peixinhos criando um novo reino juntos, almejando, todos, um reino maravilhoso pra se viver, agirem de formas tão diversas e contraditórias? Mesmo assim a vontade do peixinho de estar ali era maior que tudo isso. E continuou a nadar pelo reino das águas claras, a conhecer novos caminhos e novos amigos também. Aprendeu a se defender de peixões mal intencionados, mesmo num reino novo, existia peixinhos contaminados, o que é normal, afinal cada um deles já tinha um história de vida antes de chegar ali. O peixinho começou a compreender que os peixes tinham motivos diferentes para estar ali, que não necessariamente todos queriam apenas viver num reino maravilhoso, cada um tinha seus interesses particulares. O peixinho inclusive descobriu que haviam coisas mais obscuras, do que ele poderia imaginar. Num dia ensolarado em que ás águas estavam bem claras, o peixinho percebeu que não havia mais tanta transparência nas águas, havia dificuldade em enxergar, algo estva contaminando as águas. Desesperado, olhou pra trás, pra vida que deixara, para seus amigos, família, e atividades, tudo porque acreditava que ali seria diferente e percebeu que aquele novo reino havia ficado contaminado como todos os outros, senão pior. Será que todo seu esforço pra chegar até ali havia sido em vão? Mas o peixinho, não perdia as esperanças, acreditava que realmente tinha que estar ali, e não podia ser diferente. Continuou a nadar. Nadou, nadou, nadou. Até que um dia reparou que não se enxergava mais nada naquelas águas, o peixinho se perguntava, como havia deixado chegar nesse estado, como que não percebeu antes que as águas estavam escurecendo, aí ele lembrou que há muito tempo atrás havia percebido num dia ensolarado que as águas não estavam com a mesma transparência que antes. Então ele parou e chorou. Por ter contribuído para que tudo tivesse chegado àquele ponto, e realmente não sabia se era possível fazer algo por aquele reino e que talvez não tivesse mais jeito. O peixinho pensou, a única solução seria esvaziar todo o reino, purificá-lo e depois com calma trazer novas pessoas pra dentro, para que pelos menos o reino se salvasse, ele nem precisaria estar ali, mas o reino precisaria ser salvo a todo custo. Todos os moradores daquele reino fizeram uma reunião de urgência e decidiram que era hora de abandonarem o reino. Via-se grupos de peixinhos desesperados ao redor, uns não teriam para onde ir, outros porque relamente gostavam muito daquele reino, alguns já tinham pra onde ir mas lamentavam deixar os novos amigos, outros felizes pelo tempo que viveram ali, outros tristes por se sentirem derrotados. Uma mistura de sentimentos tomou conta dos moradores do reino naquela última noite, antes de partirem. Na manhã seguinte, os peixes foram se dispersando, se dispedindo, indo sem dizer nada, chorando. O peixinho foi um dos últimos a partir e na última olhada para aquelas águas turvas, pensou: Melhor assim. E foi embora sem olhar pra trás, mas com uma certeza, a de que não era mais o mesmo.
Pra não esquecer
Abertura nos parlapatões, palavras de rodolfo Garcia Vasquez contra o psiu e a favor da secretaria municipal. Bortolotto cantando, orquestra sofre para acompanhar. Ensaio do fala comigo. Uruboros da Angela e da Said, clows. Ai de mim. Smirnoff ice. Inquietação, não se sabe se pela satyrianas, se pelos últimos dias do espetáculo, se pela intervenção, se pela vida, se pelo que virá depois, se... Eu e você juntos, nos vingando. Carruagem que vem com Zé Celso, antecedida por um lindo cavalo branco e em cima patrícia Guille torneada e bela nua, naquele cavalo selvagem, o coro atrás que gritava o hino dos Satyros, na carruagem havia algo de podre, não sei dizer bem o que. Camille Claudel, sem som, sem luz, mas vertiginoso. Correia para a homenagem do Zé, música, vinho, Bandeira Branca. Nos perdemos, ficamos, embriagados. Beijo a mão de Zé Celso Martinez Corrêa, ele me beija a boca. e viva Dionísio. Embriagada beijei a boca, perdida, boca de sempre, entregue, beijada. e viva a a Baco. Conversa fora até de manhãzinha. Café da manhã juntos. Café, queijo quente, quero igual o dela. Preciso de um óculos escuro de cinco reais pra tapar as olheiras, pode ser? Só tenho de oito. Ótimo. Eu te amo, já te falei isso? Não vou conseguir ficar longe. Três da tarde tem ensaio, aaaaa, ai de mim! Dani e eu. Eu te amo, seria bom se fosse verdade. Vamos almoçar, não seis da tarde já é jantar. Vamos. Vamos desistir. Ta bom, fala você, não melhor você, pode falar que não dará tempo, então falamos os dois. Combinado. Pai. Kafka. Olhe ao seu redor, também está sujo pai. Antipenúltimo dia, ai que dor. vamos curtir a dor, alguém diz, e todos gostam. 150 pessoas ficaram pra fora, colocamos 100 pra dentro, só cabem 80, as pessoas estão enlouquecidas lá fora querendo entrar. Atores emocionados em cena, fico brava. Vai ter ensaio depois do fala comigo, não, não pode, vai ter e pronto. Lá fora amigos, professor... lá fora bombava, muita gente, uma cerveja antes do ensaio, só uma. Ok. Ensaio, água pela primeira vez, bacias. Banho tomado. Ai de mim. Camille, um desconhecido vem dizer que foi lindo, seus olhos enchem dágua. Recebo um puxão de orelha. Não entregue jamais, não se entregue, nunca. Vou prestar atenção nisso. Na vida. Me dá um beijo na frente dele, jogos amoroso. Não posso com isso. Dessa vez não. Pelo menos dessa vez. Eu posso estar acompanhado, você pode estar acompanhada, mas a gente se curte demais. Pode ser, pode não ser mais. Você acabou pra mim, naquele dia. E ontem, não aconteceu. Apenas me contaram, e eu não pude acreditar, porque estava bêbada. Apenas. Embriagada por Baco e abençoada pelo Zé. Pessoas, embriagar-se, entregar-se. Te adoro. Você namoraria comigo, né? Não se engane meu bem. É mais leve do que pensa. Eu não banco, apenas. Tem a ver comigo e não com você. Palavras e palavras. Seis da manhã. Dou aula amanhã. Casa. Não. Sim. Ai de mim! A professora se atrasou, a professora não trouxe o cd, a professora, não trouxe, o texto, a professora não trouxe o lenço, a professora chegou atrasada por causa do metrô, não foi? Foi sim querido, por causa do metrô. Vamos ensaiar, a professora não conseguia falar, a professora, não dormiu, a professora parecia alcolizada, não isso não. Fala comigo doce como a chuva, delicado. Você tem alma de artista. Palavras e palavras. Não precisava de tantas palavras. A arte fala por si. Penúltimo dia, 150 pessoas pra fora.Todos cansados, sem dormi. Ai que dor. Rua, muita gente. Vamos sair daqui, vamos, a gente volta pelas três. Horário de verão. Já são cinco, vamos voltar. Não, não. Já são duas da tarde, vamos. Almoço e pensamentos, cigarros e vinho. Angustia no peito. Dói. Não falem comigo. Nossa que cara. Óculos escuro. Parem de me olhar. Cerveja. Inquietude. Teatro de rua. Show cancelado. Convites arrumados. Último dia. Ai de mim. Roda de palavras e palavras, choro. Isso ninguém pode tirar de vocês, são os criadores. Obrigada a cada um de vocês por esse trabalho existir. Tive minha vida tranasformada e sei que isso aconteceu com todos aqui. Tesão a cada cena, a cada palavra. Choro em cena. Ator descontrolado, não conté a emoção, em, depois outro e outro. O espetáculo tem que continuar. Bandeira branca amor, não posso mais, essa saudade que me bate eu peço paz. Nus, entregues, despidos, emocionados parao público. Abraços e beijos. Uma das coisas mais lindas que já vivi no teatro. A atriz não sai do camarim, se nega a sair, estamos indo. Jantar, festa. Um desconhecido me é apresentado. O que posso fazer pra sair daí, quer uma bebida? ou qualquer outra coisa... vamos dançar então, muuuuito. Perda de comanda. Café da manhã, depois o café da manhã de verdade. Não quero deixar você ir embora, nem eu. Vamos ficar aqui então. Dez da manhã, não vou embora, nem eu. Vamos nos ver, nos falar. Não some, não some. Me liga. Te ligo. Choro.
Despedida
A moça, começou a chorar compulsivamente, sentou numa cadeira de madeira, pôs o corpo a relaxar, soltou o tronco por cima das pernas e ficou ali. Soluçava. Não queria ouvir nada, nem ninguém. Doía muito. Sentia a dor. Ficou ali parada chorando por muito tempo. Sua cabeça doía, devagar, sem mais sentir o corpo, levantou o troco, depois a cabeça, se olhou no espelho a sua frente, enxugou as lágrimas, parte com as mãos e o restante com parte da blusa que vestia, não na verdade era um vestido preto de decote acentuado, usou parte da saia dos vestido para enxugar as lágrimas, já não havia mais ninguém ao seu redor. Levantou-se, dobrou algumas roupas, e falava com elas como se falasse com uma criança abandonada, aconselhou que se cuidassem, que fossem boazinhas dali pra frente. E agradeçou num abraço apertado, tudo que viveram juntas. Sentiu seu cheiro pela última vez, não estavam limpas, haviam sido usadas, mesmo assim o cheiro era bom. Sem mais encará-las num gesto rápido, de alguém que não quisesse esitar na ação que está fazendo, socou uma por uma num saco preto. Parecia que estava enterrando-as. Num ato de fúria, sufocou-as no enorme saco preto e saiu andando sem olhar pra trás. Depois de tudo ensacado, ao redor só via sacos pretos, muitos deles. Olhou no cabideiro três peças de roupas penduradas, pensou em levá-las contigo, hesitou e achou melhor deixá-las ali por enquanto, assim poderia voltar naquele lugar, de tantas histórias, e pegá-las, enfim para sempre. Deu uma última olhada no espelho, apagou a luz e saiu.